Leve
FASE FINAL · Dia 24 · de Foncebadón a Ponferrada
por Paula · 27 de junho
A Cruz de Ferro é um dos lugares mais emblemáticos do Caminho Francês. No ponto mais alto, a 1500 metros, ergue-se uma simples cruz de ferro, sobre um poste de madeira, rodeada de um monte de pedras, que os peregrinos trazem das suas terras. As pedras simbolizam dores, preocupações, perdas e o ritual é, passados todos estes quilómetros de caminhada e reflexão, deixá-las ali e seguir uma vida mais leve.
Eu não trouxe pedra nenhuma. Não planeei, não me lembrei. Nem com o “aguacate” acordei para este ritual, e teria sido perfeito. Depois pensei em apanhar uma qualquer da estrada, mas não me pareceu bem.
Estava em Astorga quando o Tito, o massagista do Albergue, me questionou quantas pedras trazia. Surpreendido com a minha resposta, perguntou-me se podia levar uma por ele. Disse imediatamente que sim, só depois me ocorreu que talvez fosse pesada… Felizmente era só uma pedrinha de 20g do México onde tinha vivido. Cabe muito bem na minha bolsa de cintura.
A Cruz de Ferro fica a dois quilómetros do Albergue, ideal para chegar a tempo do nascer-do-sol. Estava um dia fresco e nublado, mas nem isso lhe retirava beleza.
Os peregrinos aproximam-se em silêncio. Ouve-se apenas o vento nas folhas das árvores e o canto dos pássaros. Subi ao monte, deixei a pedra do Tito e entrei na capela ao lado para as minhas orações.
À saída do local cruzei-me com a neozelandesa de 72 anos (uma inspiração!) que me diz: “I’ll just go there and say some words”E eu sabia que seriam palavras em Maori, em homenagem ao seu pai.
A partir deste ponto o caminho sente-se mais leve para todos. Para mim literalmente! Hoje não levo mochila (a bem das minhas pernas!).
Começa uma chuva miudinha. Abriguei-me num refúgio para beber uma meia-de-leite. Aos poucos, as nuvens afastaram-se e desvendaram vales e montes, brindando-nos com uma luz inebriante.
Foi uma manhã lindíssima.
E depois de 23 dias a passear na mochila, foi finalmente altura de dar uso aos bastões! Preciosos, para a descida de mil metros entre rios e pedras e pedrinhas e formações rochosas.
Chegada triunfante a Molinaseca, uma vila tão bonita e arranjada que fiquei com pena de não dormir por lá. Escolhas. Mais uma ponte medieval, um rio, relva e esplanada quase vazia. Em Espanha almoça-se tarde. Ao meio dia é ainda hora de desayuno.
Deitei-me na relva, descalcei-me e mergulhei os pés no rio Meruelo. Soube a um pedacinho de céu.
Almocei na esplanada e segui caminho até Ponferrada, a última cidade antes de Santiago de Compostela. A partir de agora só pueblos e vilas!
Tinha recomendação da minha amiga Joaquina para provar “as melhoras Patatas Bravas” no El Bodegon. Mas infelizmente os horários não se conjugaram e a prova ficará para outra viagem.
Combinei com a Z encontro em frente à Basílica de Nossa Senhora da Encina (que significa Azinheira) para visitar e jantar às 18h30. Rimo-nos muito com histórias do dia, que ficarão para outro texto.
Ao contrário do dia, a noite no Albergue não foi tão leve. Muito barulho. Entradas e saídas constantes no quarto. Estava ansiosa que chegassem as 5h30 para me pôr na alheta até Villafranca del Bierzo.
E que boa surpresa encontrei no dia seguinte, mas isso fica para amanhã.






























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Comentários (6)
Ler as tuas partilhas são uma inspiração. Diariamente venho a este espaço em busca dos teus relatos. Confesso que quando terminares o teu caminho vou sentir essa falta. Aguardo, com curiosidade e interesse, o livro que editarás.😀😀🤪
— Joaquina, 27/06/2026 ·
Que lindo relato amiga! O aguacate ficou muito bem lá no Albergue junto de outras pedras amigas :-) Tiveste oportunidade de levar a pedra de outro alguém, que lindo! Deve ter sido um alívio caminhares sem a mochila às costas! Beijo minha querida, já na última semana e com a companhia da Madrinha da razão!
— Madrinha Alegria, 28/06/2026 ·
Que bom estares a caminhar mais leve, sem a mochila. Faço minhas as palavras da Joaquina. Não consigo deixar de te ler diariamente! E as fotos, um deslumbramento! Continuação de bom caminho na companhia de Santiago 👣🙏
— Sãozinha, 28/06/2026 ·
Ui estás uma expert em Concertos Ronquianos em Albergues. Já conheces todas as "árias"? Lolol
— Jo, 30/06/2026 ·
A fotografia da Cruz de Ferro tem uma luz muito bonita. Gostei da pedra. Sempre tens uma, mesmo não sendo tua! As flores a enfeitar as janelas e varandas são o máximo!Beijinhos e Bon Camiño
— Carla, 30/06/2026 ·
Continuo fã das tuas fotografias!! Os massagistas tem feito milagres as pernas e as companhia a alma… Depois de várias centenas kms, continuas a Paula sorridente que tenho o privilégio de conhecer “há uns tempitos”!!) Beijos
— PQuadros, 01/07/2026 ·