Considerações várias aos 500

FASE FINAL · Dia 23 · de Astorga a Foncebadón

por Paula · 26 de junho

Todas as dúvidas que tinha acerca da lã merino, foram desfeitas. Estou fã. Euros muito bem gastos: três t-shirts, um casaquinho e (desde ontem) 2 pares de meias. Lava e seca num instante e não cheira a pivete. Aprovadíssimo!

Comprova-se que os sapatos devem ser um número acima (porque o pé incha) e todos os dias a regra é carradas de vaselina e dois pares de meias em cada pé. Funciona!

Sobre Bolhas: não há milagres. Mesmo com meia boa e sapato Rolls Royce, é quase certo aparecerem. O que fazer? Saber tratar delas, como aprendi com o meu pai há muitos anos. Kit agulha e linha, que é essencial para “efeito dreno”. Tive uma no segundo dia. Foi tratada e nunca mais deu problemas!

Ao princípio lavava a roupa de três em três dias. Depois adoptei a lavagem diária. Alterno entre a lavandaria self-service e o tanque. Trouxe detergente liquido e umas folhas de detergente. Prefiro o liquido: mais espuma e cheirinho.

Bastões... ando a passeá-los há 22 dias, presos à mochila. Tenho a certeza que serão preciosos na descida até Ponferrada no dia 24.

Começar cedo significa antes das 6 da manhã para assistir ao nascer-do-sol e chegar antes da hora de almoço ao destino. Tem sido fundamental durante a onda de calor.

O meu espírito planeadinho faz-me marcar Albergue de véspera. Normalmente corre bem, mas há dias em que o risco compensa.

O relógio indica que já fiz mais de 1 milhão de passos e o primeiro dia continua a ter o record de esforço (coitada da Catarina com a subida até Orisson). Ainda tenho pela frente duas etapas desafiantes: Foncebadon (23) e O Cebreiro (26)

A loucura não é fazer 800 quilómetros. A loucura é não ter planeado 2 dias de descanso, totalizando 35 dias em vez de 33. Já não será para mim, mas fica para registo futuro.

Descobri que 31 quilómetros é o meu limite diário. Ando a apanhar cacos desde o dia da Meseta. A média de 23 é o ideal, sendo que até 27 está tudo bem. Depois disso, paga-se a factura nos dias seguintes. Os jovens passam por mim a voar. Há quem faça mais de quarenta, o que me deixa boquiaberta. Que energia tem a juventude!!!

Dizem que todos sofrem (ou vão sofrer) de três males (e por esta ordem): Bolhas, Shin Splints (ou Canelites em português) e Gastroentrite. Já passei as duas primeiras e pelo sim, pelo não, deixei de beber água das fontes - avisaram-me que é melhor apostar na água mineral engarrafada.

O que ninguém pergunta:

  • - Porque estás a fazer o caminho?

  • - Em que trabalhas?

  • - Qual tua idade?

As conversas andam à volta do percurso: onde e quando se começou, destino final, data origem e temas práticos do dia-a-dia. Depois há quem queira ter conversas profundas… desses fujo a sete pés!

Já me cruzei com mais de 30 nacionalidades.  É uma festa multicultural. Falo inglês, portunhol e tudo o que for preciso. Na verdade, não falo nada e falo tudo ao mesmo tempo. O cérebro já deu um nó e, às vezes, dou por mim a falar português com a croata.

Sobre o dia de hoje: o ponto crítico era a etapa de seis quilómetros entre Rabanal del Camino e Foncebadón. Uma subida que já visualizava há dias.

Rabanal del Camino é uma aldeia deliciosa, com casinhas cuidadas e varandas floridas. O grande destaque é o Mosteiro, onde se pode assistir a cânticos gregorianos diariamente. Infelizmente, não dá para tudo. Há quem tenha FOMO (fear of missing out - medo de estar a perder alguma coisa). Eu já aceitei que é impossível ver tudo. Respirei fundo e segui com convicção rumo a Foncebadón.

Estava um dia quente, mas sem exageros. Ajudou-me a paisagem verde campestre e a floresta. Por momentos, voltei aos primeiros dias com a Emília, ou à subida dos Montes de Oca com a Sheila.

O meu albergue era um dos primeiros da vila e a gerente disse-me que ainda bem que eu tinha de descansar. Ali era o sítio ideal: não havia nada para ver! Ahahaha Acho que é a primeira vez que o destino não tem igrejas!

Ao jantar, sentei-me numa mesa muito internacional (Taiwan, Coreia do Sul, China, Austrália, Estados Unidos) e jovem. Tinha claramente o dobro da idade de cada um.

Para proteger as pernas, decidi enviar no dia seguinte a mochila pela JacoTrans. Nesta fase não vale a pena fazer esforços desnecessários. O mais fácil é libertar peso.

Só havia um problema: faltava-me uma pequena mochila para transportar água e snacks no dia seguinte, e não havia nenhuma loja que vendesse. Foi então que apareceu a A de Idaho, que me emprestou a sua. E aqui vem a última consideração dos 500 kms. Eu sabia,… o Paul já me tinha ensinado e hoje voltou-se a confirmar: The Camino will provide!

Considerações várias aos 500
Considerações várias aos 500
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Considerações várias aos 500
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Considerações várias aos 500
Considerações várias aos 500
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Comentários (5)

  • Isto é que estás uma lavadeira!! A fazer concorrência á Shierley 😂 Adorei as flores a enfeitar todos os canteiros e até na rua. A preferida foi a da Joaninha. Até as vacas felizes não faltam 😂 Bom Camiño Beijinhos 😘

    Carla, 26/06/2026 ·

  • Que post maravilhoso! Tive que o ler duas vezes! As fotos são magníficas! Que floresta linda! Gostei de saber que também uasa a técnica da agulha e linha para as bolhas. Resulta sempre! Continuação de bom caminho e que Santiago te acompanhe. 👣🥾🙏

    Sãozinha, 26/06/2026 ·

  • Que bela sessão de fotografias, adoro a tua perseverança, grande beijinho 😘

    Rosa Mendes, 27/06/2026 ·

  • The Camiño will provide... tão bom!! É a vida a acontecer. E ninguém tem nada a ver com a idade que cada um tem, it's just a number :)

    Jo, 30/06/2026 ·

  • Obrigado por partilhares as reflexões e as belas paisagens!! Beijos!!

    PQuadros, 01/07/2026 ·