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FASE FINAL · Dia 30 · de Portomarín a Palas de Rei

por Paula · 3 de julho

O padre Jorge já me tinha avisado. Dizia que o Caminho Francês se dividia em três partes.

A primeira, de SJPP até Burgos, é a fase da montanha, onde o desafio é físico. O corpo tem de se habituar ao esforço diário, às dores, às mazelas, ao ritmo de caminhar todos os dias.

A segunda vai até León: a famosa e interminável Meseta, onde o desafio passa a ser mental. Caminhamos, caminhamos, e não parece chegar ao fim. A paisagem pouco muda e a cabeça começa a perguntar porque é que nos metemos neste assado (!) Literalmente.

A terceira começa, sobretudo, a partir de Sarria. Aí o desafio são as pessoas. O corpo já encontrou o seu equilíbrio, a mente também, e chegam as multidões que fazem os últimos cem quilómetros até Santiago. É quase como a reintegração na vida normal: trânsito, buzinadelas, horários para chegar, filas para comer.

E é exatamente assim.

As paisagens continuam bonitas. A floresta mantém-se, alternando com campos verdejantes, sempre naquele sobe e desce característico da Galiza. Mas a multidão pesa. Falam alto, riem, ocupam o caminho. Há grupos de adolescentes, escolas, escuteiros. Os monitores verificam se alguém ficou para trás. Fazem lanches em círculo nos parques e enchem o espaço e o tempo.

Penso “a experiência do Caminho é tão rica para quem o percorre desde o início, que deve saber a pouco a quem começa em Sarria”.

Mas depois corrijo. Não deve saber a pouco. Quem começa aqui não conhece outra realidade, não faz comparações. Vive o seu caminho, que será tão verdadeiro como o meu. Sou eu que comparo. E talvez seja esse o problema.

Passo pelo E de Madrid, que me diz: “Antes éramos una familia. Ahora somos una multitud.”

Foi por isso que o dia me custou. Talvez porque hoje celebro 700 quilómetros. Talvez porque já lá vão trinta dias a caminhar. O dia em que parti de SJPP parece longínquo no tempo.

Parámos para tomar o pequeno-almoço e encontrámos filas. O café de outras etapas deu lugar a restaurantes grandes, com cartazes de menus impressos e atendimento quase automático. Não havia lugar para sentar. Seguimos para o próximo, dois quilómetros à frente. Conseguimos uma mesa, era a única livre. Até para a casa de banho havia quatro pessoas à espera.

Não consigo evitar pensar na desilusão que será mostrar “este caminho” aos meus três homens, que chegam amanhã. O que lhes queria apresentar era o outro. Este parece-me uma versão apressada e massificada. Pela primeira vez, apeteceu-me fechar o livro antes de chegar ao último capítulo.

A chegada a Palas de Rei suavizou um pouco esse sentimento. É uma vila pequena e acolhedora. Os albergues municipais, onde ficam instalados os jovens, ficam logo à entrada da vila e, por isso, o ambiente ficou mais calmo.

Almoçámos em modo celebração: 700 quilómetros cumpridos, num dia fisicamente exigente. A Sofia continua com zero bolhas e poucas dores musculares. Eu estou bem, só cansada e desiludida com este fecho. Será sempre assim até Santiago?

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Comentários (8)

  • [Sempre que leio SJPP a minha mente vai para Sarah Jessica Parker e para The sex and the City, e rio-me a imaginar-te com os looks dela a fazer o camiño]. Agora o que interessa: Quem faz a última parte do camiño, como disseste, não conhece outra realidade. O camiño que eu fiz, deve ter sido pouco mais de 100km, foi brutal e não foram as "multituds" que vieram tirar nada, porque tudo o que precisamos sabemos onde está. Eu divertia-me a ver quem passava por nós e qual o seu propósito (o cheiroso, a simpatica, os chinocas, a antipática, a de cor de rosa)... vemos outra realidade, que nunca retira, só acrescenta! Porque a vida também é barulho e confusão! Vais sempre encontrar o teu camiño ;) beijo grande, está quase

    Jo, 03/07/2026 ·

    • ✿ Paula respondeu

      Ahahaha Sarah Jessica Parker tão bom!!

      Paula, 08/07/2026

  • Ainda bem que só depois de 700 KMS sentiste um pouco de decepção. Agora,falta pouco, e é natural que estes últimos KMS sejam mais difíceis, não só por aquilo que descreves, porque psicologicamente é isso que acontece Amanhã vais ter os teus homens, a darem-te força para chegares ao fim. Um grande beijinho

    Tininha, 03/07/2026 ·

  • Não te desiludas depois de tudo que já foi percorrido!Tinhas umas pequenas experiências dos 2 caminhos feitos que não tem nada haver com este minha heroína! Vê-Se bem nas fotografias a quantidade de pessoas comparadas com as outras fotos. Tu até sabias pelo padre Jorge que era assim.Está quase, quase. Beijinhos 😘😘

    Carla, 03/07/2026 ·

  • Quando fizemos Cebreiro-Santiago, o Abílio ficou tão stressado com a multidão, em Sarria, que queria desistir. Eu achei muito interessante e nada me incomodou porque fiquei feliz ao ver tanta gente em busca da luz. Aproveitei o momento e continuei a adorar. Até porque a seguir a Palas de Rei as pessoas começam a desperçar e a multidão dissolve-se.

    Joaquina, 03/07/2026 ·

    • ✿ Paula respondeu

      Que bom testemunho. E tens razão, a partir de Palas de Rei há muito menos pessoas. Porque será?

      Paula, 08/07/2026

  • Cada pessoa em cada momento só está preparada para uma parte… Tu que já andas nisto há muito tempo precisaste de mais… As pessoas que começam em Valença ou em Sarris se calhar daqui a uns anos vão querer fazer todo como tu quiseste depois de fazer o camino português… Por isso, agora queres ir fazer a peregrinação japonesa… Alegra-te que muita gente sente necessidade de buscar algo mais sublime que o seu dia-a-dia… O Campo de Estrelas está ao fundo da rua!!! O Apóstolo espera o vosso abraço!! Santas passadas finais… Beijinhos e Abraços

    PQuadros, 04/07/2026 ·

  • Uma breve desilusão… em 700 km não está nada mal😅. Amanhã tudo se apaga, vais ver! Haverá um autocarro carregado de coisas boas! Beijooooos

    Catarina, 04/07/2026 ·